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O que comer no Círio de Nazaré

Um recorte de pratos paraenses pra comer antes, durante ou depois do Círio.

por Dicionário Paraense

Em Belém, o Círio começa a ser comido dias antes de ser rezado. Enquanto os carros da procissão ainda são preparados e a corda ainda descansa enrolada, panelas já fervem baixinho em milhares de cozinhas — porque os dois pratos que vão coroar o almoço do Círio não se fazem da noite pro dia. Os dois nascem da mesma planta, a mandioca, e os dois passam pela mesma prova de fogo antes de chegar à mesa.

A paciência que vira comida

Da mandioca sai a maniva, a folha moída que carrega veneno natural e só se torna comestível depois de pelo menos uma semana cozinhando sem pressa. É só quando ela finalmente amansa que a cozinha recebe as carnes salgadas e defumadas — toucinho, charque, linguiça, paio, costela, pé e orelha de porco — que transformam a folha na maniçoba, a "feijoada paraense" de paciência bem maior que a original.

Da mesma mandioca sai também o tucupi, o caldo amarelo e ácido que precisa da mesma fervura demorada pra deixar de ser tóxico e virar a base do pato no tucupi — servido com arroz, jambu refogado e farinha, pimenta só para quem pedir. Não é coincidência que os dois tenham virado, juntos, Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Pará em maio de 2022 — por duas leis estaduais distintas, aprovadas na mesma sessão da Assembleia Legislativa (Lei 9.601/2022 pra maniçoba, Lei 9.606/2022 pro pato no tucupi): são a prova de que a cozinha paraense sabe transformar risco em tradição.

O resto da mesa

É essa mesma paciência, multiplicada por toda uma cidade, que enche a mesa do Círio de mais do que só os dois pratos-símbolo. O tacacá chega fumegando na cuia — o mesmo caldo de tucupi, agora com camarão seco e jambu que formiga de leve a língua de quem prova pela primeira vez, tradição tão forte que as tacacazeiras de Belém viraram Patrimônio Cultural Imaterial da cidade em 2013. O vatapá paraense pesa no dendê e no camarão. E no fim, quando ninguém mais tem fome mas todo mundo ainda quer um pouco mais, os frutos da terra — cupuaçu, bacuri, muruci — viram sorvete, torta ou mousse, ou simplesmente viram açaí batido puro, sem açúcar, acompanhado da farinha d'água que estala entre os dentes.

Da mesa pra rua

Essa fartura não fica presa dentro de casa: ela sai pra rua e vira o Arraial do Círio, a feira que cerca a Basílica de Nazaré durante toda a quadra nazarena — onde, além da maniçoba e do pato no tucupi, também se encontra arroz-com-pato, caruru e maxixada. Comer em pé, no meio da multidão, é tão tradição quanto comer sentado à mesa da família, e uma tradição que já passa de cem anos.

Em 1927, uma barraca chamada "Barraca da Santa" já anunciava no Arraial: "Pato no Tucupy, Camarão ao molho Bechamel, Caruru à maranhense, Galantine de galinha, Mussuã com pimenta, Peru assado com fiambre e Gateau de banana" — o Pará e a Europa lado a lado no mesmo cardápio escrito à mão.

Quatro décadas antes dela, em 1887, era o Café Chic quem recebia os primeiros romeiros do dia com chocolate quente e café com leite, servidos desde as seis da manhã. Entre um século e outro, a receita mudou pouco: o Círio sempre exigiu tempo pra ser cozinhado — de mandioca a devoção — e é esse mesmo tempo, guardado com paciência, que volta pra mesa todo mês de outubro.

Fontes: https://www.oliberal.com/cirio/almoco-do-cirio-veja-as-comidas-tipicas-servidas-durante-a-festa-de-nazare-1.1028204 · https://alepa.pa.gov.br/Comunicacao/Noticia/8018 · https://ufpa.br/pratos-tradicionais-do-almoco-do-cirio-sao-herancas-de-misturas-culturais/ · https://portalamazonia.com/gastronomia/manicoba-e-pato-no-tucupi-conheca-os-principais-pratos-do-cirio-de-nazare/

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